Interfaces Desfigurativas

A desfiguração na dança

Entre Terra. Elisa Schmidt. Sesc Prainha. Florianópolis. Fotografia de Eneléo Alcides.

Entre Terra. Elisa Schmidt. Sesc Prainha. Florianópolis. Fotografia de Eneléo Alcides.

A desfiguração pode ser observada em aspectos compositivos dos trabalhos de artistas do século XX como: Antonin Artaud (1896– 1948), Samuel Beckef (1906–1989), Francis Bacon (1909–1992). Estes artistas quebram o sentido e a lógica da língua, para deixar falar as sensações.

O projeto Interfaces Desfigurativas, concatenou ideias da desfiguração para a dança, imbricando aspectos das artes visuais, do teatro, da literatura e da performance para a composição dos solos Entre Terra e Meum Corpus. No Interfaces, a desfiguração foi utilizada como uma estratégia de desestabilização de linguagens, conceitos e comodidades, permeando uma discussão intensa com a identidade do sujeito que dança.

A pesquisa corporal envolveu o estudo das danças de rua, da capoeira, das artes visuais, bem como as possíveis relações sociopolíticas tramadas entre o sujeito e o mundo através do movimento da dança.  Dentre os parâmetros de criação desenvolvidos durante este projeto, estão  a relação entre ritual e identidade. Desenvolvemos  a utilização da fala decomposta, gaga, como estratégia desfigurativa, bem como o corpo como escultura movente. A partir do estudo do movimento e das sensações que eles provocam, buscamos perceber os estados psiconfísicos gerados.

Valorizamos a experiência e priorizamos a movimentação permanentemente instável,  arriscando a imersão em um terreno movediço e distinto da arte de entretenimento. Esta experiência contrapôs a espetacularização com a imersão fenomênica, abrindo outros flancos e perspectivas para o tecido dissensual de Florianópolis.

Elisa Schmidt

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Crítica de Adriana Maria dos Santos aos solos Entre Terra e Meum Corpus

No espetáculo cênico Interfaces Desfigurativas Intercâmbio ENTRE SOLOS, em que foram dançados os solos Meum Corpus e Entre Terra,  de imediato observa-se tensões e inquietações deflagradas pela presença de corpos solitários debatendo-se com o espaço vazio, com o solo, com objetos, consigo próprio.

Como observadora logo sou imersa na cena, na angústia da transfiguração ou como é mais apropriado, na desfiguração que, porquanto ali no cenário posto, enlameado e limpo simultanemante, acontece. Observo um corpo, dois corpos a cada vez, em estado compulsivo, em contorções, em auto se fazendo alter, sugerindo (e assim me vejo tomando a palavra simulacro) uma descamação, uma saída de casulo, uma agonia de desfigurar a face, a pele que será imersa por camadas de argila.

Não é uma dança apenas, é como diria a consagrada canção é “um ballet esquisito”, é um corpo se contorcendo em ângulos, pontas, perfurações no espaço. Avessas, tortuosas formas lhe vão sendo dadas e esquecidas segundos depois, na ordem do ator e da atriz que perfazem um caminho de transgressão da harmonia pelo rito de passagem eleito.

A terra se constitui em uma transformação cujo informe a configura. Plantas, aves, peixes, nuvens tudo se contorce em permanente busca por cumprir uma ordem de coisas que visam a sobrevivência, em um processo de adaptação, de procriação, de regeneração e perenidade mutante.

O rosto coberto pela argila sugere a máscara primordial do ser ancestral. O monstruoso emerge e se desfaz; me atenho aos movimentos, de início é uma sobreposição de pequenos gestos concentrados na face, a modelam gestualmente. A desconstrução da imagem que desborda o sentido dos termos esgar, grunhir, ruídos ancestrais que por instantes permeiam o espetáculo, o qual se veste de ritual talvez de cura, talvez de passagem, nota-se um intenso embate do corpo, talvez sugerindo uma preparação do ritual de sacrifício. A massa de argila e a água envolvem o corpo, conduzem à desfiguração.

A respiração, a transpiração, a fluência da ação sobre o material tornam a ação uma passagem entre a descontinuidade subjetiva e o ritual do cotidiano, um momento cuja sequência é instável, transborda a espera, a gestação de outro corpo sob os olhares atentos, silenciosos em sua presença ausência, em testemunhos de corpos que se debatem, se excedem, se contraem. No desejo presente na vertigem, consolida-se a queda, a imersão na argila, a derradeira desfiguração, a morte.

Em uma estratégia de roteiro, se reconfigura a vida aos que apreciam o teatro de corpos, lama e penumbra, o espaço ganha vida através de uma linha imaginária entre eu e os outros. Estes e eu na condição de descontinuidade, entre abismos testemunhamos a volta do corpo à “normalidade” apresentada por uma peça de vestuário, um casaco vermelho que permanece na cena.

Na passagem para outro corpo, constato uma estetização da agonia que nos constitui diariamente como seres mutantes, em desfiguração resultante da dor, do amor, da banalização do riso, do choro, da experiência social ou solitária, do acordar, do adormecer, da esperança e desesperança de cada dia, na diluição dos sonhos, na reconfiguração do mapa da palma da mão, da dimensão da pupila, da forma do corpo que não pára de perecer com intervalos de satisfação e tédio, por vezes em compulsão catatônica.

É a desfiguração permeando a vida entre um balde de argila e um balde de água, entre mãos e rostos, gestos que problematizam a anestesia do corpo, do nosso no caso como receptores conscientes ou não das interfaces da matéria em frequente mutação.

Adriana Maria dos Santos

Artista pesquisadora

Ilha de SC, 2013

Divina Comédia

… vermes 

nascidos para formar angélica borboleta

 

(Purgatório, x, 124-25)

Solos de dança

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Reflexões processuais

Entre Terra

Este solo foi preparado com um conteúdo processual e inacabável, uma vez que utiliza-se a improvisação em dança e elementos cênicos incontroláveis como a argila. Ele é, talvez,  uma lágrima desta carne fracassada, que tem fome de Deus e não o encontra. Inominável…

Meum Corpus

Nada. Brasília, Rio…pastores inimigos. Tiradentes foi uma farsa. As minhas ideias não são minhas, elas pertencem aos outros, outros que me julgam ser como eles…Nós, o gado…  O gado acha que está livre… o escravo que se sente livre produz mais.

Selecionados para a oficina matéria-prima.

1. Adilso Machado
2. Marcos Klann
3. Mariana Romagnani
4. Karin Serafin (ouvinte)
5. Jussara Belchior
6. Alejandro Ahmed
7. Anderson do Carmo
8. Gregori Homa
9. Daiane Dordete
10. Felipe Mourad
11. Luana Raiter
12. Kysy Fischer
13. Milene Lopes
14. Cláudia Oliveira
15. Betânia Silveira (ouvinte)
16. Fernando Weber
17. Silmar Rigo
18. Malu (ouvinte)
19. Isadora Perush
20. Caroline Serafim Dias
21. Michele Schiocchet (ouvinte)
22. Adriana Maria dos Santos (ouvinte)

A produção informa que a lista de ouvintes foi excluída por solicitação de De Sagazan, por causa da necessidade de criar um campo de concentração para o trabalho. Estarão como ouvintes apenas membros da equipe ou pessoas envolvidas com o projeto direta ou indiretamente. A produção também informa que o critério de seleção priorizou como participantes as pessoas de diferentes áreas (dança, teatro, artes visuais) que tenham contato com práticas corporais.

Agradecemos à todos os inscritos pelo envio do seu material e informamos que o debate, assim como a apresentação da performance `Transfiguração`, são eventos abertos para o público.

Comunicamos que todos devem estar com roupas velhas e confortáveis e que levem toalha para banho após a vivência, uma vez que será utilizado argila e tinta durante a prática.

Oficina Matéria-prima com Olivier De Sagazan

Transfiguration 2

Serão ministrados exercícios práticos de composição em performance art a partir da utilização de matérias-primas selecionadas por Olivier De Sagazan, assim como a exposição de vídeos de suas obras. O artista enfatizará a desfiguração do rosto como estratégia compositiva para a performance. Com o expemplo de Antonin Artaud, Francis Bacon e Henri Michaux, De Sagazan busca na desfiguração uma maneira de criar fissuras no sentido, na linguagem e na figura, para criar ranhuras nas identidades petrificadas pelo cotidiano. Além disso serão explanadas relações entre a biologia, a filosofia e a arte. Oficina destinada à artistas profissionais, professores e estudantes de artes.

Oficina: Matéria-Prima com Olivier De Sagazan

Data: 12/13/14 de junho (quarta, quinta e sexta).

Horário: Das 09:00 às 12:00h

Local: Jurerê Sports Center

Inscrições: Enviar carta de intenção e breve C.V. para elisateatro@yahoo.com.br até dia 04 de junho. Informações: 99628010 (com Elisa Schmidt)

Devido ao grande número de inscritos, dado que se demonstra inversamente proporcional à qualidade da oficina, faremos uma seleção de 20 pessoas para a prática e 10 pessoas como ouvintes.

Apoio: Jurerê Sports Center.

Agradecimento: Grupo Cena11.